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PR tem 33% mais professoras(es) sem concurso que efetivas(os) no Ensino Médio


“Como eu vou conseguir dar meu melhor em sala de aula se estou preocupado em descobrir como eu vou me alimentar no próximo mês? E se eu perder as aulas, como já aconteceu duas vezes?”. A pergunta, do professor e doutor em Filosofia, Bruno Henrique do Rosario Xavier, é um retrato da precarização da profissão, realidade que atinge mais de 20 mil docentes que dão aulas para o Ensino Médio regular na rede pública estadual do Paraná por meio de contratações precárias, sem concurso público.

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De acordo com dados do Censo Escolar, a quantidade de educadoras(es) submetidas à essa forma de contração, em 2025, supera em mais de 33% o total de professoras(es) do quadro efetivo nesta etapa de ensino. Segundo os números, o que deveria ser exceção tem sido ampliado cada vez mais, ao ponto de o número de docentes concursadas(os) do Ensino Médio ter caído 31%, no estado, entre 2015 e 2025. Mas as questões de carreira e financeira não são as únicas preocupações. A desvalorização da categoria, alavancada pela gestão do governador Ratinho Jr. (PSD), também está no centro das reclamações. 

Com apenas 29 anos, Bruno já tem graduação em Filosofia e mestrado em Bioética, além do doutorado. É um nível de formação que, segundo a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), apenas 0,3% da população brasileira entre 25 e 64 anos possui. Mas, quando perguntado sobre valorização profissional, o professor transforma esse dado em uma realidade que reforça as denúncias frequentemente apresentadas pela APP-Sindicato — e que não aparecem na propaganda do governador do Paraná. 

“Não consigo me sentir valorizado enquanto professor. Seja pelo pai ou mãe, seja pelo Poder Público. Às vezes tenho a impressão de que a família e o Estado se ofendem quando faço meu trabalho. Ao dar uma aula, por exemplo, sobre as religiões de matriz africana, preciso ficar ‘me justificando’, dizendo que faz parte do currículo etc., porque para a família, muitas vezes, parece que estou fazendo uma coisa errada, um crime. Já viu isso? Uma profissão em que, se você exercê-la de modo coerente, pode ser despedido? Essa é a realidade do Estado”, afirma.

Para o professor Bruno, além de salas lotadas, indisciplina das(os) estudantes e das cobranças da gestão, o principal desafio enfrentado é a falta de estabilidade. “A maior dificuldade é sentir que o Estado nos odeia. É essa palavra que quero usar mesmo, ódio. As condições de contratação são as mais desesperadoras. Enquanto meus amigos de outras profissões estão planejando as férias de fim de ano, estou economizando o máximo, pois nem sei se ano que vem estarei empregado. Isso é cansativo. Angustiante”, afirma.

Pode ser dispensado a qualquer momento

No Paraná, a contratação de professores temporários é permitida pela Lei Complementar 108/2005, sendo admitida somente “para suprir a falta de docentes, inclusive em situações decorrentes de aposentadoria, demissão, exoneração, falecimento, afastamento para capacitação e licenças legalmente concedidas”.

A análise dos dados do Censo Escolar indicam que o regime especial, que deveria ser utilizado para casos excepcionais, tem se tornado quase que uma regra no Paraná. Em 2015, o número de concursadas(os) no Ensino Médio regular era de 22.902, mas despencou para 15.728 (-31,32%) em 2025. No mesmo período, a quantidade de temporárias(os) saltou de 9.886 para 19.210, um aumento de 94,32%. 

Os crescimentos mais expressivos foram registrados nas contratações terceirizadas (948,98%), saindo de 49 para 514 professoras(es), e com carteira assinada (1.494,87%), que passaram de 78 para 1.244 docentes. Somando temporárias(os), terceirizadas(os) e CLT, em 2015 eram 10.013, diante de 20.968 em 2015, ou seja, 109,41% de aumento nas contratações precárias.

No geral, a quantidade de profissionais atuando no Ensino Médio aumentou em 10,85%, indo de 34.930 para 38.721 em dez anos, mas impulsionada pelas contratações sem concurso público que, pelos dados de 2025, representavam 54,15% do total.

A seleção de temporárias(os) é feita por meio de Processo Seletivo Simplificado (PSS). Inicialmente, a classificação era obtida apenas com a comprovação de títulos e não havia custo. Mas até nisso a gestão Ratinho Jr. resolveu complicar, passando a exigir prova prática, composta por plano de aula e gravação de vídeo, e cobrança de taxa de inscrição, a partir de 2022. No edital aberto este ano, acrescentou a Prova Nacional Docente (PND) como um dos critérios de pontuação, ampliando ainda mais a burocracia e os gastos para as(os) docentes. 

Na prática, são exigências idênticas às de concurso público, porém sem garantia de emprego e estabilidade. A contratação tem tempo determinado de até 12 meses, prazo que pode ser prorrogado por igual período. Após o término, as(os) educadoras(es) ficam impedidas(os) de assumir um novo contrato por um período de 12 meses.

Secretário de Finanças da APP-Sindicato e membro da coordenação do Departamento de PSS da entidade, o professor Élio da Silva explica que o edital já define: ser aprovada(o) no processo seletivo não garante contratação. A distribuição de aulas é feita no início do ano e as(os) concursadas(os) têm prioridade. O que sobra é destinado aos PSS e a remuneração é proporcional à quantidade de aulas atribuídas. Alterações para mais, menos, ou até mesmo a dispensa da(o) educadora(or), podem ocorrer a qualquer tempo, sem aviso prévio.

A título de exemplo, um(a) docente contratada(o) via PSS que conseguir apenas dez aulas semanais (45 aulas mensais), vai receber ao final do mês apenas R$ 1.291,64 de salário bruto, com base na tabela vigente desde maio de 2026. Portanto, menos do que o salário mínimo nacional (R$ 1.621,00) e do salário mínimo regional, com piso que varia de R$ 2.105,34, para trabalhadoras(es) rurais, a R$ 2.407,90, para técnicos de nível médio. À remuneração final do PSS nesta simulação ainda serão somados R$ 233,97 de auxílio-transporte e R$ 222,16 de Gratificação de Tecnologia e Ensino (GTE) e descontada a contribuição para o INSS.

“Por falta de concurso público, temos PSSs com aulas que a gente já chama de aulas definitivas, pois ele começa no início do ano e vai até o final, porque não tem um concursado com essas aulas, por exemplo. Agora, tem garantia do ano todo? Não tem. Ele pode perder a qualquer momento. Quando que ele perde? Quando fecha turmas, por exemplo. Isso acontece no meio do ano, muitas vezes”, explica Élio.

O dirigente destaca que a APP-Sindicato defende o ingresso de todas(os) as(os) trabalhadoras(es) da educação por concurso público. “Essa é a nossa luta histórica. Quando a gente fala da pauta do PSS como um todo, é a questão do concurso. Porque além da possibilidade de melhorar a remuneração, ingressando por concurso, as professoras e professores vão, justamente, evoluindo, progredindo na carreira, enquanto o PSS fica estagnado do ponto de vista da remuneração. Ele recebe sempre o valor inicial do ingresso, do magistério”, pontua.

De acordo com o professor, o nível de precarização desta forma de contratação vai muito além da falta de estabilidade, pois não garante benefícios e direitos como 13º salário, terço de férias e acesso ao Sistema de Assistência à Saúde (SAS) oferecido pelo Estado, assim como afastamento por questão de saúde e licenças permitidas aos(às) servidoras(es) concursadas(os).

“O projeto do governo Ratinho é extremamente neoliberal. Ele ataca toda a categoria, achata a carreira, não aplica o reajuste do piso na tabela, mas o PSS é o mais prejudicado, porque ele pode perder aula a qualquer momento e tem a remuneração incompleta. Então, o concurso público é uma das bandeiras centrais de luta da APP-Sindicato para que esse grande número de PSS possa assumir uma vaga na educação, vagas que existem de verdade”, completa.

O sistema está doente

O último concurso público para professoras(es) realizado pelo governo do Paraná foi em 2023, após um hiato de 10 anos. Inicialmente foram abertas apenas 1.256 vagas, sendo 1.109 para docência e 147 para pedagoga(o). Posteriormente, houve a divulgação de editais ampliando o número de vagas. Mas o contingente de docentes não efetivos presente na rede indica que os novos chamamentos foram insuficientes para suprir a demanda atual, além de serem muito aquém das 10 mil oportunidades ofertadas no certame anterior, em 2013.

O professor de Matemática Matheus Kinceski Pires foi um das(os) aprovadas(os) em 2023. Chamado para assumir o cargo, ele conta que recusou a convocação. O motivo, segundo ele, “é porque o sistema educacional [do Paraná] está doente”. Ao constatar as condições de salário e trabalho a que a categoria tem sido submetida pela gestão do governador Ratinho Jr., o educador preferiu continuar como professor temporário e focar em outra estratégia para a sua vida profissional, sem desistir da docência.

“Apesar das condições de trabalho serem meio complicadas, eu gosto muito de ser professor e o meu objetivo de carreira é trabalhar em um Instituto Federal. Eu fiz estágio lá, quando estava na graduação, e gostei bastante. Acho que se tem algum lugar em que a educação funciona, é lá”, afirma. Matheus conta que, por ainda ser jovem, ele tem 26 anos, consegue conciliar o emprego temporário com o mestrado e a preparação para um concurso com o cargo que deseja em nível federal.

“A categoria é muito maltratada pela gestão do governo”, avalia Matheus. Para explicar o motivo da desistência de trabalhar para o governo do Paraná, ele lista uma série de situações que ocorrem na rede pública estadual, desde dificuldade de dar aula com salas lotadas até o sistema de pressão sobre as(os) educadoras(es) efetivas(os). 

O professor também critica a forma como o sistema de ensino foi moldado para atender de forma prioritária às metas do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) e de uso das plataformas digitais adquiridas pela Secretaria da Educação.

“O diretor é trocado se não atinge as metas educacionais. Então o governador cobra dos diretores, os diretores cobram dos pedagogos e os dois cobram do professor. É uma cobrança em efeito cascata. Tem escola que eu trabalhei que não tinha acesso à internet de qualidade, então não dava para atingir as metas. Ainda tem o estágio probatório, uns cursos que os professores fazem. Uma completa perda de tempo que tira a atenção do professor do que realmente é importante, que é melhorar a qualidade da aula. Assim como os estudantes, que são distraídos pelas plataformas”, relata.

A perda da autonomia docente motivada por decisões políticas é outro problema citado pelo educador. “Se o professor reprova o aluno, ele tem que escrever um relatório para cada aluno que ele reprova. Se o diretor reprova muitos alunos, ele é trocado. Então é tudo muito reforçado para não reprovar o aluno. É muita punição para o professor executar, de fato, o trabalho dele. Tudo é feito para passar de ano, não para aprender. Porque o que importa são os números. Tem aluno que chega no terceiro ano do ensino médio, o cara não sabe fazer a multiplicação, sabe?”, explica.

Pode faltar professoras(es)

Embora sujeitos à condições ruins de trabalho e salário, os dois professores guardam consciência sobre o valor do magistério. “Me mantenho no Estado porque gosto do que faço. Já dei aulas em escolas e universidades particulares, mas não me sentia realizado. Quero estar no Estado, porque sinto que sou mais aproveitado ali. Mas é um paradoxo”, diz Bruno. “No meu caso, eu sinto que a docência se alinha com o meu propósito de vida. Por isso que eu não desisti. Mas se a pessoa tá lá só para ter uma fonte de renda, procura outra fonte menos estressante”, alerta Matheus. 

Apesar disso, Bruno e Matheus dizem que não descartam a possibilidade de mudar de profissão. Essa condição coloca os dois docentes também nas estatísticas reveladas por estudos sobre o risco de faltar professoras(es) no Brasil, justamente pela dificuldade de atrair e manter profissionais jovens nas redes públicas de ensino. A situação do Paraná faz parte desses estudos, que apontam ainda para efeitos como o envelhecimento da categoria.

Entre 2015 e 2025, mais que dobrou o número de professoras(es) do Ensino Médio regular com 60 anos ou mais na rede pública estadual paranaense. Os dados, extraídos do Censo Escolar, também mostram que, para cada docente jovem (com até 24 anos), existem sete com 50 anos ou mais. As estatísticas indicam que o sucateamento da profissão está contribuindo para o risco de faltar professoras(es), como alerta a segunda edição da pesquisa “Apagão dos Professores: o desafio da renovação dos professores no Brasil”, divulgada pelo Instituto Semesp no início de setembro. 

Segundo a pesquisa do Instituto Semesp, entre 2015 e 2025, o Brasil registrou um aumento de 6,6% no número de professoras(as) do Ensino Médio. Mas o cenário identificado por trás deste crescimento é lido com preocupação, pois é atribuído principalmente pela ampliação das contratações temporárias e incorporação de profissionais de faixas etárias mais elevadas. A queda de 31,1% no número de docentes de até 24 anos e o aumento de 104,5% entre as(os) profissionais com 60 anos ou mais sustentam a avaliação de que o índice de renovação do quadro de docentes e a precarização da profissão estão em níveis críticos.

Um dos principais indicadores apresentados pela pesquisa é a chamada taxa de renovação docente, calculada a partir da relação entre professoras(es) de até 24 anos e aquelas(es) de 60 anos ou mais. Quanto menor essa taxa, maior o sinal de dificuldade de reposição do quadro. No Brasil, em 2015 havia praticamente um professor jovem para cada profissional com 60 anos ou mais. A taxa era de 0,95. Em 2025, o índice caiu para 0,32.

Utilizando os dados do Censo Escolar e aplicando a mesma metodologia do Instituto Semesp, o indicador apresentava situação positiva no Paraná, em 2015, com 1,2 professor jovem para cada docente com 60 anos ou mais. Já em 2025, a taxa caiu pela metade, despencando para 0,6. Ainda que o indicador estadual seja maior que o nacional, o resultado evidencia não só que houve uma piora em relação há 10 anos, mas também que a dificuldade de entrada de novas gerações na profissão é uma realidade que atinge de forma preocupante a rede pública estadual paranaense.

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Fonte:appsindicato.org.br

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