13 de Maio: As escravas que não eram Isaura
Neste 13 de Maio, data que evoca profundas reflexões sobre a memória e a resistência negra no Brasil, a secretária executiva de Comunicação da APP-Sindicato, professora Cláudia Gruber, convida a categoria a um mergulho em águas literárias e televisivas.
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Para além das datas oficiais, Cláudia defende que o olhar sensível da literatura permite revisitar o passado não como uma fotografia estática, mas como um processo vivo de tensões e contradições. É sob essa perspectiva que a análise da obra A Escrava Isaura, de Bernardo Guimarães, ganha contornos de urgência pedagógica e social.
Adaptada para telenovela, mais do que um fenômeno de audiência que parou o mundo na década de 1970, a trama de Isaura, Leôncio e Álvaro serve como uma reflexão das violências estruturais do século XIX. Nesta análise, a professora explora como a narrativa, marcada pela censura e pelo romantismo, revela as dimensões emocionais e morais de uma tragédia que ainda ressoa em nossa sociedade contemporânea.
Confira o artigo na íntegra:
As escravas que não eram Isaura
Para esse 13 de Maio, vamos enveredar por passados um pouco diferentes.
Tenho alguns vícios e um deles é telenovela. Há as preferidas, há aquelas que depois que as assistimos, não lembramos de nada e há aquelas que são eternas. Escrava Isaura está entre essas últimas.
Outubro de 1976. Estreava Escrava Isaura, escrita por Gilberto Braga, baseada no romance homônimo de Bernardo Guimarães. Telenovela essa que se tornou um fenômeno mundial.
O triângulo amoroso formado por Leôncio – Isaura – Álvaro (Rubens de Falco – Lucélia Santos – Edwin Luisi) cativou telespectadores de 104 países até agora, além de ter sido reprisada cinco vezes pela emissora que a produziu, também ganhou nova adaptação em 2004. Para ampliar a história, para 100 capítulos, Gilberto Braga acrescentou novos personagens e tramas paralelas, como por exemplo: o envolvimento de Isaura com com Tobias, jovem proprietário das terras vizinhas à fazenda. Tobias tenta comprar Isaura para poder alforria-la mas, Leôncio nega e acaba cometendo uma grande maldade: coloca fogo na cabana em que o casal se encontrava e lá morrem Tobias e Malvina, a esposa de Leôncio.
Gilberto Braga relembrou anos mais tarde que, por causa da censura da época, não podia usar a palavra “escravo” nas falas dos personagens. A alegação dos censores era que a escravidão havia sido uma mancha na história do país e precisava ser esquecida. O autor usou então o termo “peça” para poder driblar a censura.
Mas, por que essa telenovela chamou tanto a atenção do público? Para entender o fenômeno, precisamos ir à sua fonte, o livro A Escrava Isaura (1875), de Bernardo Guimarães. Antes, um breve resumo da obra para relembrarmos a história:
Isaura, uma escrava órfã desde o nascimento, foi educada por sua senhora, Dona Ester que morre logo no início da trama. Leôncio, o filho, torna-se o administrador dos bens familiares e, ao conhecer Isaura na fazenda de Campos de Goytacazes (RJ) onde ela vivia, apaixona-se perdidamente pela moça, que o despreza. Diante dessa recusa, o jovem aplica severos castigos à Isaura. Detalhe: a escrava teve uma educação esmerada, digna de uma moça da corte somente por ser branca.
Isaura sofre inúmeros castigos nas mãos de Leôncio, sendo inclusive colocada no tronco e prometida em casamento ao jardineiro Belchior, versão brasileira de Quasímodo (O corcunda de Notre Dame, de Victor Hugo). A moça reencontra seu pai e eles fogem para o Recife. Lá, Isaura assume uma nova identidade (Elvira) e conhece Álvaro, um jovem abolicionista. Porém, a moça é descoberta por Leôncio e se vê obrigada a voltar para a fazenda. Enlouquecido para encontrar Isaura, Leôncio acaba falido e quando descobre que foi Álvaro quem arrendou todos os seus bens, fica desesperado e se suicida.
A história em si, aparentemente, é um melodrama, típico enredo dos romances românticos onde o bem sempre vence o mal e o final, talvez tenha o típico “….e viveram felizes para sempre.” É um grande amor transpondo enormes barreiras, traz um dos temas centrais do Romantismo: bem x mal. Tema este que agradava sobremaneira o público da época e que até hoje é a força motriz de enredos da cultura popular e de massa. É preciso que as heroínas representem tudo o que pode haver de melhor e mais nobre na natureza humana. Isaura representava tudo isso e mais um pouco, já que como uma mulher branca, era inadmissível que fosse escravizada, embora, na vida real, houvesse muitas Isauras.
Publicado em formato de folhetim em 1875, com episódios semanais, a obra traz diversas camadas que souberam cativar o leitor. A começar por uma linguagem abundante em descrições regionalizadas tanto dos espaços quantos dos personagens, o que confere uma maior plasticidade e verossimilhança ao texto e facilidade de assimilação aos leitores. As paisagens e ambientes descritos conseguem também imprimir, na leitura, determinados estados de espírito dos personagens. Vejamos:
Na fazenda de Leôncio havia um grande salão toscamente construído, sem forro nem soalho, destinado ao trabalho das escravas que se ocupavam em fiar e tecer lã e algodão.
Os móveis deste lugar consistiam em tripeças, tamboretes, bancos, rodas de fiar, dobadouras, e um grande tear colocado a um canto.
Ao longo do salão, defronte de largas janelas guarnecidas de balaústres, que davam para um vasto pálio interior, via-se postada uma fila de fiandeiras. Eram de vinte a trinta negras, crioulas e mulatas, com suas tenras crias ao colo ou pelo chão a brincarem em redor delas. (Guimarães, 2026, p.65, grifos nossos)
Ainda:
Estamos no Recife. É noite e a formosa Veneza da América do Sul, coroada de um diadema de luzes, parece surgir dos braços do oceano, que a estreita em carinhoso amplexo e a beija com amor. É uma noite festiva: em uma das principais ruas nota-se um edifício esplendidamente iluminado, para onde concorre grande número de cavalheiros e damas das mais distintas e opulentas classes. É um lindo prédio onde uma sociedade escolhida costuma dar brilhantes e concorridos saraus. (Guimarães, 2026, p.105, grifos nossos)
Na época em que a obra foi escrita, o Brasil vivia o auge do movimento abolicionista que engajou inúmeros intelectuais e escritores da época e Bernardo Guimarães era um deles. Para poder dialogar com seu público leitor, além de representar uma temática tão sensível como a escravidão, soube introduzir suas impressões acerca da mesma ao apresentar ao público um triângulo amoroso onde cada personagem tinha uma função específica na trama, assim como representavam diferentes facetas da sociedade da época. Observemos mais de perto esse triângulo amoroso.
A heroína Isaura era a bondade, a nobreza de caráter, a pureza e a beleza traduzidas em uma mulher. Nesta condição de mulher que Isaura representa – submissa, bondosa, obediente, amorosa – há também um outro lado da personagem: insubmissa, rebelde e obstinada pela liberdade que tanto anseia.
Isaura, por sua parte, não só pelo desenvolvimento de suas graças e atrativos corporais, como pelos rápidos progressos de sua viva e robusta inteligência, foi muito além das mais exageradas esperanças da excelente velha, a qual em vista de tão felizes e brilhantes resultados, cada vez mais se comprazia em lapidar e polir aquela joia, que ela dizia ser a pérola entrançada em seus cabelos brancos. (Guimarães, 2026, p.20)
Leôncio representa, desde cedo tudo o que há de mau: “Mau aluno e criança incorrigível, turbulento e insubordinado, andou de colégio em colégio, e passou como gato por brasas por cima de todos os preparatórios, cujos exames todavia sempre salvara à sombra do patronato.” (Guimarães, 2026, p. 14)
É aquele que cria tramas ardilosas para aproximar-se e possuir Isaura. Simboliza o mau caratismo, a agressividade, a torpeza e a mesquinharia características dos senhores de escravos, que não viam ali pessoas e histórias, apenas mercadorias e lucros.
— Isaura, — disse Leôncio com voz áspera apontando para os instrumentos de suplício, — eis ali o que te espera, se persistes em teu louco emperramento. Nada mais tenho a dizer-te; deixo-te livre ainda, e fica-te o resto do dia para refletires. Tens de escolher entre o meu amor e o meu ódio. Qualquer dos dois, tu bem sabes, são violentos e poderosos. Adeus!… (Guimarães, 2026, p. 100)
Já Álvaro, assim é descrito:
Tinha ódio a todos os privilégios e distinções sociais, e é escusado dizer que era liberal, republicano e quase socialista. Com tais ideias Álvaro não podia deixar de ser abolicionista exaltado, e não o era só em palavras. Consistindo em escravos uma pequena porção da herança de seus pais, tratou logo de emancipá-los todos. Como porém Álvaro tinha um espírito nimiamente filantrópico, conhecendo quanto é perigoso passar bruscamente do estado de absoluta submissão para o gozo da plena liberdade, organizou para os seus libertos em uma de suas fazendas uma espécie de colônia, cuja direção confiou a um probo e zeloso administrador. (Guimarães, 2026, p.118, grifos nossos)
É o jovem abolicionista. Idealista, que luta pela liberdade não só de Isaura mas também dos demais escravos. Mas, com Isaura/ Elvira é diferente, é amor:
Álvaro, não obstante ficar sabendo, depois da noite do baile, que Isaura era uma simples escrava, nem por isso deixou de tratá-la daí em diante com o mesmo respeito, deferência e delicadeza, como a uma donzela da mais distinta jerarquía social. Procedia assim de acordo com os elevados princípios que professava, e com os nobres e delicados sentimentos do seu coração. (Guimarães, 2026, p.199, grifos nossos)
Apesar de todo mal que Leôncio representa e pratica contra Isaura, é o amor que triunfa. É com esse romance inusitado, entre uma escrava e um abolicionista, que o autor buscou sensibilizar e chamar a atenção daquela sociedade do século XIX para as questões abolicionistas.
Outros aspectos que também chamam a atenção na obra como a cidade para que fogem Isaura e seu pai: Recife (PE). Essa não foi uma escolha aleatória do autor. Ele poderia ter traçado uma rota de fuga para qualquer outro lugar do Norte/ Nordeste ou até mesmo tê-los levado para o Sul. Mas, Bernardo Guimarães escolheu justamente a cidade que se tornou um berço do abolicionismo, onde atuaram nomes como Tobias Barreto e Joaquim Nabuco. Segundo o Doutor em Direito, Luis Rosenfield: “A geração de 1870 lutou em três frentes: pelo abolicionismo, o republicanismo e o federalismo, buscando respostas ao que eles viam como o atraso. A Escola do Recife está no meio desse debate.”( Geração de 1870 da Escola do Recife lutou pelo abolicionismo e o republicanismo – IAB | Instituto dos Advogados Brasileiros).
É justamente no Recife que Isaura/Elvira conhece e se apaixona pelo jovem abolicionista Álvaro:
Miguel que em sua profissão de jardineiro ou de feitor havia passado a vida desde a infância dentro de um horizonte acanhado e em círculo mui limitado de relações, tinha pouco conhecimento e nenhuma experiência do mundo, e portanto não podia calcular todas as consequências da difícil posição em que ia colocar a si e a sua filha. […]Entendeu, pois, que em Pernambuco poderia viver com sua filha em plena seguridade, ao menos por três ou quatro meses, uma vez que se afastassem da sociedade o mais que pudessem, e procurassem esconder sua vida na mais completa obscuridade. (Guimarães, 2026, p.132)
Isaura é uma mulher branca escravizada; assim como os mais de 4,8 milhões de africanos que o Brasil recebeu entre os séculos XVI e XIX. A origem de Isaura é romantizada: ela é fruto do romance entre Juliana (escrava e mucama de Dona Ester) e de Miguel (feitor da fazenda). Mesmo tendo nascido branca, ela permaneceu escravizada como forma de vingança do Comendador Almeida contra Juliana, a quem ele perseguiu insistentemente, porém ela não cedeu às suas investidas e foi duramente castigada, inclusive durante a gestação, tanto é que acabou morrendo logo depois do parto.
— Ah! senhor! bem sei de quanto é capaz. Foi assim que seu pai fez morrer de desgosto e maus-tratos a minha pobre mãe; já vejo que me é destinada a mesma sorte. Mas fique certo de que não me faltarão nem os meios nem a coragem para ficar para sempre livre do senhor e do mundo. (Guimarães, 2026, p.98, grifos nossos)
A branquitude de Isaura trabalhada por Bernardo Guimarães expõe uma prática comum durante a escravidão brasileira: as relações, consensuais ou não, entre mulheres negras escravizadas e senhore brancos e seus frutos. Prática esta mesmo condenada na época, sobretudo pela religião católica, foi uma constante e se caracterizou, na maioria das vezes, como relações violentas e abusivas, onde o estupro era normalizado por se tratar de mulheres negras servindo a seus senhores.
Tais relações extraconjugais eram toleradas mas, não havia o reconhecimento destes filhos por parte dos senhores de escravos. Eram todos bastardos. Ao colocar uma branca na condição de escrava, para sofrer o tanto que as negras escravizadas sofreram, o romancista provoca não só empatia pela personagem mas também questionamentos sobre a sociedade escravocrata em que vive. “— Sim, senhor, — continuou Miguel, — e se ela não se sujeitasse a esse casamento, teria de passar o resto da vida presa em um quarto escuro, incomunicável, com o pé enfiado em uma grossa corrente, como tem vivido desde que veio do Recife até o dia de hoje.” (Guimarães, 2026, p.256, grifos nossos)
Já, o final da história não segue o padrão romântico da época, com o tradicional “…e viveram felizes para sempre.” O romancista surpreende novamente o leitor com um ato extremo do antagonista:
— Senhor, — bradou Leôncio com os lábios espumantes e os olhos desvairados, — aí tendes tudo quanto possuo; pode saciar sua vingança, mas eu lhe juro, nunca há de ter o prazer de ver-me implorar a sua generosidade. […]Leôncio tinha-se rebentado o crânio com um tiro de pistola. (Guimarães, 2026, p.258, grifos nossos)
Deixando em aberto o que poderia ter acontecido com Álvaro e Isaura. Será que eles “viveram felizes para sempre?” Na telenovela, sim.
Bernardo Guimarães já usou desse expediente em outra obra sua, escrita três anos antes – O Seminarista – , onde o protagonista Eugênio, iria subir ao altar para rezar sua primeira missa mas, descobre que Margarida, seu grande amor, havia morrido. Diante deste fato:
Chegando à escada que sobe para o altar-mor o padre parou, e quando já todos de joelhos esperavam que rezasse o “intróito”, viram-no com assombro arrancar do corpo um por um todos os paramentos sacerdotais, arrojá-los com fúria aos pés do altar, e com os olhos desvairados, os cabelos hirtos, os passos cambaleantes, atravessar a multidão pasmada, e sair correndo pela porta principal.
Estava louco… louco furioso. (Guimarães, 2026, p. 84)
Ao dar finais trágicos para seus personagens, o autor demonstra que nem sempre a vida ficcional é perfeita. Escrava Isaura trouxe à baila uma importante reflexão não somente sobre as dimensões físicas da escravidão mas, na trajetória da personagem, mostra também os problemas emocionais, psicológicos e até mesmo morais desta tragédia desumana que destruiu milhões de vida e até hoje é uma chaga aberta em nossa sociedade. Isaura representou não só o desejo de liberdade almejado por todos os escravizados, mas também suas dores, seus traumas, suas tristezas e angústias.
Sabemos que há outras obras que abordam esta temática de maneira mais precisa e histórica, como, por exemplo, a Trilogia Escravidão (2019, 2021 e 2022) de Laurentino Gomes, trabalho de fôlego, extremamente didático e historicamente abrangente porém, a opção por Escrava Isaura vem de encontro não só à nossa formação mas, também pela relação intrínseca que a literatura tem na vida das sociedades.
Só a literatura pode ser um espelho – às vezes de aumento, às vezes distorcido – de mazelas sociais que até hoje nos perseguem e nos machucam como foi a escravidão.
Cláudia Gruber, mestre em Estudos Literários pela UFPR, professora aposentada do Curitiba Sul e secretária executiva de Comunicação da APP-Sindicato.
Referências Bibliográficas: >>> O SEMINARISTA >>> ESCRAVA ISAURA
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Fonte:appsindicato.org.br






















































































































































































































































































































































































































































































































































































































































