Conferência define mobilizações para os próximos quatro anos
Terminou na manhã deste domingo (12), em Pinhais, na Grande Curitiba, a 9ª Conferência Estadual de Educação da APP-Sindicato. O evento reuniu centenas de educadores(as) e deixou uma tarefa fundamental para professores(as) e funcionários(as) de escola: lutar pelo avanço da educação pública e resistir aos ataques contra o sistema público de ensino.
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“Discutimos, ao longo destes três dias, o nosso papel nesta sociedade e o mundo que estamos construindo. Este evento é fruto de um trabalho coletivo, de meses de planejamento. Cada pessoa contribuiu para concretizar o que materializamos aqui, tanto nos registros formais de nossos documentos quanto naquilo que não pode ser documentado: as memórias, as sensações e a energia revigorante de estarmos unidos. Temos a certeza de que estamos no caminho certo. Não é uma trajetória simples, mas é a via necessária”, avaliou a presidenta da APP-Sindicato, professora Walkiria Olegário Mazeto.

Durante a plenária final, os(as) educadores(as) analisaram as novas emendas que deverão ser adicionadas ao documento final, construído a muitas mãos durante toda a conferência. Já as crianças participantes da Conferencinha fizeram uma apresentação cultural, mostrando “qual é a escola do futuro” que elas desejam. A apresentação arrancou aplausos e demonstrou que o futuro da educação está sendo construído para os(as) pequenos(as).
O secretário de Formação Política Sindical e Cultura, Nilton Stein, salientou que o objetivo central, daqui para a frente, será garantir uma educação pública de qualidade para os(as) estudantes, com a devida valorização de professores(as) e funcionários(as) de escola.
“Discutimos temas fundamentais como financiamento da educação, controle social e currículo, consolidando diretrizes que nortearão as ações da APP-Sindicato nos próximos quatro anos. Nosso objetivo central é defender uma educação de qualidade, que assegure a devida valorização dos professores, professoras, funcionários e funcionárias da rede pública estadual”, completou.

A secretária de Funcionários(as) de Escola e uma das coordenadoras da conferência, Nádia Brixner, aponta que o encontro foi fundamental para ouvir os(as) trabalhadores(as), que estão todos os dias nas escolas e identificam os pontos que devem ser melhorados.
“A contribuição de cada um de vocês tornou esta conferência muito mais significativa. Este resultado é fruto de um trabalho coletivo, realizado com esmero para que tudo ocorresse da melhor forma possível. Em nome da direção e da coordenação, despeço-me agradecendo profundamente pelo empenho de todos”, celebra a secretária.

Luta nacional
Também foi feita uma mobilização simbólica da campanha da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) sobre o uso consciente da inteligência artificial no ensino, pautado pela relação humana entre professor(a) e estudante. Os(as) trabalhadores(as) enfatizaram, ainda, a luta pelo fim da escala 6×1, pauta prioritária da classe trabalhadora em 2026 e fundamental para garantir maior tempo de descanso à categoria no país.
“Encerramos a nossa 9ª Conferência Estadual de Educação com grande entusiasmo e resultados expressivos. Um dos pontos centrais de nossa pauta foi o compromisso com o fim da escala 6×1, medida essencial para assegurar aos trabalhadores a dignidade e o direito à vida para além das jornadas laborais. Aliamos essa causa à nossa integração com as lutas da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) e da Internacional da Educação, em defesa de uma rede pública com investimentos consistentes. Reafirmamos, portanto, que a busca por uma educação de qualidade é o nosso desafio primordial, consolidado ao longo desta conferência”, observou o secretário de Assuntos Municipais, Celso dos Santos.

As emendas debatidas e aprovadas foram acolhidas e serviram como base para a carta-compromisso a ser entregue à Secretaria de Estado da Educação e também utilizada para pedir apoio a candidatos(as) ao Legislativo e ao Executivo em torno das pautas da educação. Já o caderno final será publicado assim que as alterações forem incluídas.
O grupo Baque Mulher Curitiba encerrou a conferência com muita energia, proporcionando um momento de diversão, dança e ancestralidade com todos(as) os participantes. A apresentação dos corpos em movimento empolgou aqueles(as) que voltam às suas regiões com uma missão: lutar pela educação pública, como prevê a carta-compromisso.
:: Confira o documento:
Carta Manifesto e Compromisso da 9ª Conferência Estadual da APP-Sindicato
“Todas as manhãs junto ao nascente dia, ouço a minha voz-banzo, âncora dos navios de nossa memória. E acredito, acredito sim que os nossos sonhos protegidos pelos lençóis da noite ao se abrirem um a um no varal de um novo tempo, escorrem as nossas lágrimas fertilizando toda a terra onde negras sementes resistem reamanhecendo esperanças em nós.” [Conceição Evaristo]
“O futuro é algo que jamais existiu antes. E quando o número de possibilidades concretas aumenta, os futuros possíveis são mais numerosos e ficam mais perto de nós, porque o presente conflitivo é um terreno fértil.” [Milton Santos (1926–2001)]
O ano é 2026. A cidade é Pinhais. Oitocentas educadoras e educadores reuniram-se na 9ª Conferência Estadual de Educação para afirmar: a educação é pública, democrática, crítica e emancipadora. O tema da Conferência nos revela a lógica e a dinâmica que fundamentam a educação como construção social, orientando o trabalho educativo para a humanização plena e emancipada. O verbo “ser” no indicativo não é uma mera ilusão retórica, mas o reconhecimento do sentido histórico da educação como direito social e, ao mesmo tempo, a afirmação de um projeto político em disputa contra sua mercantilização. Trata-se de uma recusa radical em aceitar a lógica privatista como pronta e dada. A afirmação desse projeto alimenta a organização coletiva e fortalece a práxis transformadora.
Quando Milton Santos, cujo centenário de nascimento comemoramos este ano, nos diz que o futuro é algo que jamais existiu antes, não nos oferece uma obviedade. Se o futuro ainda não existe, ele não pode ser esperado como destino nem recebido como herança. Ele precisa ser construído. Milton Santos nos convoca a reconhecer que esse futuro ainda não escrito depende das lutas que travamos hoje e, sobretudo, da capacidade de nos reconhecermos como sujeitas e sujeitos coletivos, agentes históricos capazes de transformar a materialidade da nossa existência.
Mas o futuro não se constrói no vazio. É necessário resgatar os compromissos não cumpridos do passado e reconhecer os silenciamentos. A história não é um progresso linear e inevitável; ela é um campo de tensões e de luta de classes, onde repousa a possibilidade de redenção daquelas e daqueles que lutaram e foram vencidos.
Nestes quase 80 anos de APP-Sindicato, reafirmou-se nesta Conferência o compromisso com essa história, construída por gerações de professoras(es) e funcionárias(os) da educação pública. É um comprometimento inalienável com a organização coletiva, instrumento permanente de defesa da escola pública, da democracia, dos direitos sociais e da emancipação humana.
Milton Santos nos ensinou a olhar para o território a partir de quem o habita. A Conferência olhou para a educação a partir de quem a constrói no cotidiano. Esta carta manifesta a síntese dos olhares, saberes e debates realizados e anuncia posições concretas para enfrentar à mercantilização da escola, o autoritarismo, as violências, a precarização do trabalho, a plataformização e as desigualdades estruturais que atravessam a educação brasileira e paranaense.
Vivemos tempos de intensos ataques à educação pública. Testemunhamos a implementação de reformas ultraliberais que impõem sobre a classe trabalhadora a austeridade fiscal, o congelamento dos investimentos sociais e a precarização profunda das relações de trabalho. Enfrentamos a terceirização, a privatização e a militarização das escolas, a perseguição ideológica, o assédio, o avanço do empresariamento da educação e a imposição de lógicas gerenciais que reduzem a aprendizagem a índices e a gestão escolar ao mero cumprimento de metas. Esse conjunto de medidas não é acidental: expressa um projeto de classe que subordina a educação à lógica do capital, ao controle e à padronização, com o objetivo de retirar da escola pública sua dimensão política e emancipadora.
Compreendemos, portanto, que a escola não é um mero instrumento de reprodução de desigualdades ou um espaço neutro de transmissão de conteúdos. A escola é um território de disputa histórica onde a classe trabalhadora luta pela apropriação do conhecimento sistematizado, pela consciência crítica e pela hegemonia necessária à transformação social.
Reivindicamos uma escola onde a gestão democrática seja efetiva, com a participação ativa da comunidade escolar nas decisões políticas, pedagógicas e financeiras. Rejeitamos qualquer forma de privatização, terceirização e subordinação do currículo aos interesses do capital. Defendemos um currículo crítico, alicerçado na Pedagogia Histórico-Crítica, comprometido com a ciência, a cultura, as artes e a totalidade da experiência humana, um currículo que forme para compreender e transformar a realidade, e não para a ela se sujeitar ou se conformar.
A Conferência assumiu que a valorização das trabalhadoras e dos trabalhadores da educação é condição estruturante da escola que defendemos. Não se constrói educação emancipadora sobre vínculos precários, salários rebaixados, terceirização, assédio institucional, adoecimento e perda de autonomia profissional. Por isso, defendemos concurso público, carreiras atrativas, cumprimento do piso do magistério, regulamentação do piso para funcionárias(os) da educação, formação inicial e continuada de qualidade, jornada compatível com o trabalho pedagógico, políticas permanentes de saúde laboral e aposentadoria digna. A política dos governos Ratinho Jr. e Roni Miranda negou às trabalhadoras e aos trabalhadores da educação melhorias em suas carreiras, relegando-as aos piores salários de todo o funcionalismo público. Isso não revela uma simples falta de prioridade, mas uma escolha política deliberada de um governo que opera a serviço do desmonte do Estado e da privatização dos serviços públicos.
Assumimos, também, a gestão democrática como princípio de uma educação que se pretenda emancipadora. A gestão da Secretaria de Estado da Educação (Seed) não é democrática; ela atua sob a lógica do controle, da hierarquia, do assédio e da imposição. Rejeitamos veementemente o modelo coercitivo de metas e índices, a exemplo do Programa de Acompanhamento Pedagógico, que é intervencionista e punitivista, operando de forma autoritária. Ao mesmo tempo em que atua sobre indicadores, o governo implanta o maior conjunto de escolas militarizadas do Brasil, promovendo a exclusão e a pedagogia dos quartéis. Trata-se da imposição de uma homogeneização das(os) sujeitas(os) e de violência simbólica sobre os corpos de meninas e meninos estudantes e das(os) trabalhadoras(es) da educação. É uma ilusão perversa pensar que a escola militarizada combate a violência; ela apenas a camufla, revelando um grave preconceito de raça e de classe, já que atinge prioritariamente as comunidades periféricas. A violência escolar se enfrenta com políticas sociais, equipes multiprofissionais, fortalecimento do vínculo comunitário e autonomia do projeto político-pedagógico.
Essa defesa que fazemos é inseparável da luta por justiça social. A memória histórica da violência, da diáspora, do racismo e das opressões que atravessam a sociedade brasileira não pode estar dissociada do projeto educacional que construímos. Uma educação emancipadora só existe como educação ativamente comprometida com a superação do machismo, da LGBTQIA+fobia, do racismo, do capacitismo, do etarismo e de todas as formas de discriminação. Isso significa reconhecer a diversidade como princípio constitutivo da vida escolar, enfrentar as violências que permeiam a escola e defender um currículo que forme para a liberdade humana. Não há escola democrática onde persistem silenciamentos, exclusões e violências, assim como não há emancipação possível sem o reconhecimento pleno da dignidade de todas as pessoas.
Neste momento decisivo de construção do novo Plano Estadual de Educação e dos Planos Municipais, que se encontram em debate no estado do Paraná, alertamos para a necessidade de sua elaboração por meio de um amplo processo de participação social. Esse processo deve envolver, além da Seed e do Conselho Estadual de Educação, as comunidades escolares, as universidades, as entidades científicas, os movimentos sociais e as organizações representativas das(os) profissionais da educação. Seus fundamentos precisam ser os da educação como direito social e dever do Estado, articulada ao Sistema Nacional de Educação e às diretrizes do Plano Nacional de Educação.
Mais do que um instrumento de planejamento, o novo Plano Estadual de Educação deverá constituir-se como um pacto democrático em defesa da educação pública socialmente referenciada, associada a um projeto de desenvolvimento comprometido com a soberania, a justiça social e a emancipação humana. A qualidade socialmente referenciada está diretamente vinculada ao financiamento público robusto e garantido exclusivamente à escola pública, à gestão democrática, à valorização profissional, às condições de trabalho, à superação das desigualdades, à defesa da diversidade e da inclusão, à promoção socioambiental e ao compromisso com uma formação humana integral.
No Paraná, a defesa da escola pública exige enfrentar cotidianamente a privatização e o autoritarismo. O avanço do programa “Parceiro da Escola” e “Mais Escolas Paraná”, a transferência da gestão para organizações privadas, a desconsideração da vontade das comunidades escolares e a repressão às mobilizações revelam um projeto incompatível com a educação pública democrática. A resistência social expressa no movimento “Não venda a minha escola” demonstrou que a comunidade escolar reconhece a escola pública como patrimônio coletivo da classe trabalhadora e não aceita sua submissão à lógica empresarial.
Por fim, compreendendo que a luta sindical deságua necessariamente na disputa pelo poder político do Estado, a APP-Sindicato orienta a categoria e a sociedade paranaense a apoiar, nas eleições de 2026, candidaturas à presidência, ao governo do estado, ao senado e aos legislativos estadual e federal que assumam compromissos reais com a classe trabalhadora e com a escola pública. Desde já, rejeitamos candidaturas do campo fascista-reacionário, as de continuidade do atual projeto educacional em curso no Paraná e as do campo judicial-populista e punitivista. Afirmamos a urgência na construção e no fortalecimento de candidaturas do bloco progressista democrático.
Diante disso, apresentamos à sociedade e às candidaturas de 2026 um conjunto de defesas que deve orientar os compromissos públicos com a educação:
- O cumprimento do Piso Salarial Profissional Nacional para professoras(es) e o estabelecimento de um piso nacional para funcionárias(os) nas redes estadual e municipais;
- A reformulação do plano de carreira do magistério estadual e a adequação necessária ao plano de carreira das(os) funcionárias(os) de escola, bem como o estabelecimento de planos de carreiras atrativos nas redes municipais, a realização de concursos públicos e o fim das terceirizações de funcionárias(os) de escola;
- A garantia de formação de qualidade aos profissionais da educação, valorizando o papel das universidades públicas e assegurando condições materiais para o aprimoramento constante da prática pedagógica;
- Mais investimento na educação pública e exclusivamente para a educação pública, com financiamento protegido das amarras fiscais e com implementação efetiva;
- A defesa do Sistema Nacional de Educação e da execução do Plano Nacional de Educação, com metas vinculadas a recursos, monitoramento e controle social, bem como a construção e aprovação do Plano Estadual de Educação e dos Planos Municipais a partir de ampla participação social;
- A garantia da gestão democrática nas redes e escolas, com conselhos fortalecidos, participação social, eleição direta para direções em todas as escolas e o fim do modelo intervencionista da Seed sobre as APMFs e da política de gestão baseada no controle de variáveis e metas;
- A revogação e o combate a todas as formas de privatização, como as parcerias com fundações empresariais, o programa “Parceiro da Escola”, o “Mais Escolas Paraná”, e o repasse de recursos via vouchers educacionais nas gestões municipais, reafirmando a defesa incondicional da administração pública direta da educação;
- O fim do programa de militarização de escolas e de outros modelos autoritários, com a restauração da gestão democrática e pública destas instituições, reafirmando a convivência democrática, a mediação pedagógica e a cultura de paz;
- O estabelecimento de políticas permanentes de saúde e prevenção do adoecimento, com o fim da intensificação do trabalho pedagógico, da coerção e do assédio institucional, garantindo condições decentes e dignas nas escolas;
- A defesa de um currículo crítico e emancipador, científico e cultural, com base na Pedagogia Histórico-Crítica, exigindo a revogação das reformas fragmentadoras e a garantia da pluralidade de pensamento, rejeitando frontalmente projetos como o homeschooling e o “Escola sem Partido”;
Retomada de uma matriz que contemple todos os componentes curriculares, principalmente a área de humanas;- Cumprimento de 1/3 de hora atividades a todos as(es) professoras(es) e extensivo as redes municipais;
- O compromisso intransigente com o combate ao feminicídio, ao racismo, à LGBTIfobia e às violências de classe, defendendo os direitos das mulheres, das populações negra e indígena, dos povos do campo e das florestas, das pessoas idosas e com deficiência, sempre na busca da superação das desigualdades sociais e educacionais.
- O fim do modelo punitivo que traz sérios prejuízos à carreira das(os) professoras(es),
afetando a classificação na distribuição de aulas, a formação continuada e demais direitos da carreira dos QPM e PSS;
As negras sementes resistem e reamanhecem esperanças em nós.
Que as sementes lançadas por nossa organização coletiva façam reamanhecer esperanças concretas nas escolas, nas comunidades e na vida da classe trabalhadora. Não se trata de uma esperança ingênua ou passiva. É aquela esperança revolucionária de que nos fala István Mészáros: uma esperança que se enraíza na compreensão das contradições do presente, que reconhece os limites estruturais do sistema capitalista e que, por isso mesmo, alimenta a luta por uma humanização radical. Essa esperança não é um sentimento individual; é um compromisso coletivo, uma práxis que se constrói no dia a dia da luta sindical, nas salas de aula, nas comunidades.
Que o futuro que construiremos seja um futuro onde a escola pública seja de fato pública, onde as(os) trabalhadoras(es) da educação tenham suas vidas dignificadas, onde cada criança e cada jovem possa desenvolver plenamente suas potencialidades humanas. Que a memória das lutas passadas nos fortaleça para as lutas presentes e futuras. Que a 9ª Conferência Estadual de Educação da APP-Sindicato seja um marco inesquecível nessa trajetória de construção coletiva de um futuro que jamais existiu antes, mas que é absolutamente necessário.
Curitiba, 12 de julho de 2026.
9ª Conferência Estadual de Educação da APP-Sindicato
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Fonte:appsindicato.org.br


































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































