18 de Maio: Por uma brasileirinha
O artigo da secretária executiva de Comunicação da APP-Sindicato, professora Cláudia Gruber, explica como a memória do caso Araceli Cabrera Crespo fundamenta a luta contra a violência infantojuvenil no Brasil. A autora destaca que o crime, ocorrido em 1973, sob o manto da impunidade da ditadura militar, transformou o dia 18 de maio em um símbolo de resistência, e no Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual Infantil, reforça a necessidade de uma rede de proteção ativa para que tragédias não se repitam.
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Apesar dos avanços legislativos, como a promulgação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), a realidade desafia a sociedade. Neste contexto, a escola pública reafirma-se como um espaço de acolhimento e proteção, pois é no cotidiano escolar que sinais de abuso são identificados e a cultura da denúncia ganha força. Romper o silêncio é, acima de tudo, um dever coletivo para salvar vidas e garantir o direito ao futuro das novas gerações.
Confira o artigo na íntegra.
Por uma brasileirinha:
Leia os trechos abaixo.
Esse é o início de uma triste história. História essa que não pode jamais cair no esquecimento.
Vitória, sexta-feira, 18 de maio de 1973.
Aracelli Cabrera Crespo sai do colégio São Pedro, na praia do Suá, vai para o ponto de ônibus, na esquina do Bar Resende, cadeiras de madeira pintadas de branco na calçada, uma banca de jornais em frente. É uma garota de nove anos, muito desenvolvida para a pouca idade, olhos negros e vivos, bonita na farda de saia azul, blusa azul mais calro, as iniciais SP bordadas no bolso esquerdo. Ainda não são 17 horas.
[…]
Se Aracelli tivesse tomado o ônibus, agora estaria a meio caminho de casa, no bairro de Fátima, onde as ruas não tem calçamento, são largas, e os arbustos crescem nos quintais, formando tufos de verdura por cima das cercas e muros baixos. (p.11)
[…]
Gabriel Sanches se enche de coragem, de uma coragem que vinha de seu próprio cansaço, de tantas noites sem dormir direito, da visão triste daquele corpo na bandeja da geladeira, do peito descarnado, do rosto roído, da boca arrebentada, vai dizendo a seu Henrique Rato que era ela sim, não podia ser outra.
– Identifiquei pelas mãos, pelo queixo, pelos cabelos. (Louzeiro, 2012, p.22)
No dia 18 de maio de 1973, quando tinha oito anos de idade, Araceli foi estuprada e depois assassinada a dentadas por Dante Michelini Jr. e Paulo Helal, ambos filhos da elite capixaba. Os assassinos foram protegidos pela polícia, pela justiça e pelo governo militar da época. Mesmo assim foram julgados porém, acabaram absolvidos por falta de provas. Por que será?
A história de Araceli causou extrema comoção na sociedade e acabou repercutindo nacionalmente devido à posição social dos assassinos e o grau de crueldade empregado por eles contra a menina. Em 1976, depois de uma longa e minuciosa investigação, o jornalista e escritor José Louzeiro lançou o romance-reportagem Aracelli, meu amor, porém, o livro ficou censurado até 1985, quando houve o início do processo de redemocratização do país. Durante a investigação, Louzeiro sofreu diversas ameaças, inclusive de morte, pois estava lidando com duas das mais tradicionais e influentes famílias do Espírito Santo.
Como uma forma de retratação pela omissão governamental, 18 de maio foi instituído como o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual Infantil, pela Lei Federal 9.970, de 17 de maio de 2000, durante o governo FHC.
Mas, mesmo com essa lei promulgada, com a criação do Estatuto da Criança e do Adolescente (1990) e outras legislações que asseguram a proteção de crianças e adolescentes, histórias tristes continuaram e continuam acontecendo.
Vejamos alguns casos que causaram comoção nacional devido à crueldade que foi empregada contra as vítimas:
- Ribeirão Preto (SP), 18/02/1989, Joseli Daniela da Silva Gregório (7 anos), morta por espancamento durante um ritual satânico, teve várias queimaduras de cigarro pelo corpo;
- Curitiba, 17/06/1991 – Guilherme Caramês Tiburtius (8 anos) desapareceu no final da manhã na Rua Ozório Duque Estrada e jamais foi encontrado. Se estiver vivo, terá 42 anos;
- Guaratuba, 06/04/1992 – Evandro Ramos Caetano (6 anos) desapareceu e dias depois seu corpo foi encontrado sem as mãos, cabelos e vísceras num matagal perto do bairro Carvoeiro. Há a tese de ritual satânico para a morte do menino;
- Maceió (AL), /10/1993 – Ednaldo Lopes (8 anos) encontrado morto, num matagal, estava com as mãos, pernas e cabeça separados do corpo, teve também o coração extirpado;
- Colombo (PR), 29/06/1994 – Suelen Kath (4 anos) teve o corpo perfurado por estacas como uma oferenda em ritual satânico;
- Curitiba, 3/11/2008 – Rachel Genofre (9 anos) foi raptada, estuprada e morta, tendo o corpo abandonado em uma mala na Rodoferroviária de Curitiba;
- São Paulo, 29/03/2008 – Isabella Nardoni (5 anos) atirada do sexto andar do apartamento do pai;
- Três Passos (RS), 04/04/2014, Bernardo Uglione Boldrini (11 anos), morto por envenenamento, teve o corpo colocado dentro de um saco e enterrado às margens de um rio em Frederico Westphalen.
- Samambaia (DF), 31/05/2019, Rhuan Maycon da Silva Castro (9 anos), foi assassinado, esquartejado e queimado, sendo que alguns meses antes teve os órgãos genitais cortados pelas assassinas;
- Rio de Janeiro, 8/03/2021 – Henry Borel (4 anos) chegou no hospital já morto, com lesões no crânio e hematomas nos braços;
Só de tomarmos conhecimento desses casos, o choque é inevitável. Imagine como vivem essas famílias hoje em dia, ou o que sobrou delas? Será possível mensurar o tamanho da dor, da tristeza e da indignação dessas pessoas?
Estes foram apenas alguns exemplos. Vejamos outros dados mais abrangentes:
- Em 2020, durante a pandemia, o país registrou 6.122 mortes violentas de menores, mostrando uma alta de 3,6% em relação a 2019;
- Entre 2021 e 2023, mais de 15 mil jovens e crianças foram mortos intencionalmente no país, sendo que a maioria dessas mortes ocorreram dentro de casa, cometidas por pais ou responsáveis;
- Em 2023, uma criança ou adolescente foi vítima de estupro a cada 8 minutos, totalizando 63.400 casos no ano;
- Relatório lançado pelo UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública em 2024 (13/08) aponta que, a cada 2 horas, uma criança é morta de forma violenta no Brasil, sendo que os emninos negros são as principais vítimas;
- Para dados estatísticos mais detalhados, já está disponível o AtlasdaViolencia2025 .
A escola, por mais problemas que venha enfrentando, ainda é o local mais seguro e onde ocorre o acolhimento de alunos que enfrentam violências. Diante deste cenário, é um dever coletivo denunciar qualquer forma de violência contra nossos jovens e crianças. (Artigo 13 do ECA) pois, dessa forma, podemos salvar vidas.
Para denunciar abuso, violência e exploração sexual contra crianças e adolescentes temos diversos canais:
Disque 100 – Central dos Direitos Humanos;
Ligue 190 – Para serviços de urgências policiais;
Conselho Tutelar de seu município;
Boletins de Ocorrência nas Delegacias de Proteção às Crianças e Adolescentes.
Não podemos ter medo de denunciar pois, o silêncio só protege o agressor. Pense sobre isso.
Cláudia Gruber, mestre em Estudos Literários pela UFPR, professora aposentada do Curitiba Sul e secretária executiva de Comunicação da APP-Sindicato.
Referências Bibliográficas: LOUZEIRO, José. Aracelli, meu amor. São Paulo: Prumo, 2012. AtlasdaViolencia2025
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Fonte:appsindicato.org.br




















































































































































































































































































































































































































































































































































































































































