De Maria Bueno a Tatiane: o clamor pelo fim do feminicídio
O dia 22 de julho carrega a força da memória e do protesto coletivo contra a barbárie que ceifa vidas de mulheres diariamente no Paraná e no Brasil. Instituída como o Dia Estadual de Combate ao Feminicídio, a data não apenas homenageia a advogada Tatiane Spitzner, assassinada brutalmente em Guarapuava, mas também alimenta o debate sobre um problema estrutural que desafia gerações.
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A mobilização é diária e exige discussões profundas, palestras e campanhas educativas contínuas na rede pública de ensino com o objetivo de identificar os primeiros sinais de relacionamentos abusivos e violência doméstica.
Nesse sentido, Cláudia Gruber traça um paralelo contundente entre o caso recente de Guarapuava e o martírio de Maria Bueno, lavadeira assassinada em Curitiba, no ano de 1893, que se tornou santa popular. A autora expõe a face cruel da impunidade, analisa os dados alarmantes do Laboratório de Estudos de Feminicídios (Lesfem) e convoca toda a sociedade a romper o silêncio diante das microviolências cotidianas.
Confira o artigo na íntegra:
“Muito prazer, Maria.”
Madrugada de 29 de janeiro de 1893. No final da Rua dos Campos Geraes, em Curitiba, uma mulher de 28 (ou 38) anos é morta a golpes de navalha.
Noite de 22 de julho de 2018. Na cidade de Guarapuava, uma mulher de 29 anos é esganada e atirada do 4º andar.
Cento e vinte e cinco anos separam essas duas tragédias. Há muitos pontos distintos nessas histórias, mas ambas culminaram em atos extremos de violência: o feminicídio. Na primeira, o termo “feminicídio” nem sequer existia, e o acusado foi julgado e absolvido. Na segunda, a Lei do Feminicídio (Lei Federal nº 13.104/2015) já estava em vigor, e o acusado foi condenado a 31 anos, 9 meses e 18 dias de prisão.
A primeira vítima era uma lavadeira, mulher pobre, periférica, de quem nem se sabia ao certo a data de nascimento. Sem familiares ou amigos, foi sepultada como indigente, e seu assassino acabou solto por falta de provas. A segunda, advogada e casada, teve seus familiares lutando em todas as instâncias para que o agressor fosse condenado.
Apesar de trajetórias de vida distintas e do distanciamento histórico, tanto esta quanto aquela morte foram motivadas tão somente por ciúmes excessivos e pelo sentimento de posse de homens sobre essas mulheres.
O casal Luiz Felipe Manvailer e Tatiane Spitzner, após uma festa, voltava para casa quando ela começou a ser agredida brutalmente pelo marido ainda na garagem do prédio em que moravam. Lá dentro, as discussões continuaram. Ele teria a asfixiado e jogado seu corpo do 4º andar, embora, segundo Manvailer, Tatiane tenha se jogado da sacada. Ao invés de pedir socorro, contraditoriamente, ele teria recolhido o corpo da mulher e o trancado no apartamento. Depois disso, pegou o carro da vítima e viajou até São Miguel do Iguaçu (a 340 km de Guarapuava e a 49 km de Ciudad del Este, no Paraguai), onde sofreu um acidente e foi detido.
Diante da crueldade e da repercussão do caso, o dia 22 de julho tornou-se o Dia Estadual de Combate ao Feminicídio, instituído pela Lei Estadual nº 21.926/2024, que consolidou a lei anterior (nº 19.873/2019). A data foi criada com o objetivo de, além de preservar a memória de Tatiane, promover debates, seminários, palestras e campanhas educativas na rede de ensino sobre a importância de se combater a violência de gênero, bem como de identificar e denunciar sinais de relacionamentos abusivos.
Por mais que tenhamos uma legislação mais rígida no que diz respeito aos crimes contra as mulheres, como a Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006), a Lei do Feminicídio (Lei nº 13.104/2015) e a mais recente Lei nº 15.383/2026 (Lei do Monitoramento), há um aumento latente de casos que atentam contra a vida feminina. Dados do Monitor de Feminicídios no Brasil (MFB), projeto desenvolvido pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) por meio do Laboratório de Estudos de Feminicídios (Lesfem), mostraram que, em 2025, foram identificados 5.582 feminicídios consumados e tentados no Brasil. Desses 5.582 casos, 68,52% foram consumados e 31,48% foram tentativas. Esses números superaram os do ano anterior: em 2024, foram 4.145 casos, dos quais 1.859 (44,9%) foram consumados e 2.286 (55,1%) foram tentativas.
Via de regra, segundo a pesquisa, a grande maioria dos casos ocorre na casa da própria vítima, sendo que companheiros ou ex-companheiros são os principais agressores. Mulheres negras representam mais de 60% dos casos; a faixa etária de mais de 50% das vítimas varia entre 30 e 49 anos; os principais meios empregados são armas brancas e de fogo; e as ocorrências acontecem, na maioria das vezes, durante os finais de semana.
É importante destacar que os dados apresentados pelo Lesfem divergem dos dados oficiais que aparecem no Anuário Brasileiro de Segurança Pública, pois o monitor é independente e mapeia casos que foram divulgados na imprensa e que, por um motivo ou outro, sofreram subnotificação ou apresentaram falhas classificatórias nos sistemas oficiais de registro. Vejamos os registros gerais de 2024: pelo anuário, foram 1.492 mortes em 2024; já pelo monitor, foram 1.859 — ou seja, 367 casos a mais.
Aqui no Paraná, segundo o Lesfem, em 2025 ocorreram 355 casos de feminicídio (122 consumados e 233 tentados), o que representa quase um caso por dia durante o ano. Em 2024, foram 155 consumados. Embora esse número tenha representado uma queda de aproximadamente 20% nos casos consumados em relação a períodos anteriores, em números absolutos (somando consumados e tentados) o Paraná continua no topo dos estados brasileiros em que mais ocorre violência contra a mulher, ocupando a 6ª colocação nacional — atrás apenas de São Paulo, Minas Gerais, Bahia, Rio Grande do Sul e Mato Grosso.
Independentemente das metodologias utilizadas para os registros, o que fica evidente para nós é o aumento expressivo da violência contra as mulheres a cada ano. Essa violência tem como uma de suas principais causas o machismo enraizado em nossa cultura e a falsa ilusão de impunidade que os agressores carregam consigo. Diante disso, faz-se urgente que as legislações sejam cumpridas com rigor e que, aos menores sinais de violência doméstica (as microviolências), atitudes sejam tomadas por quem quer que seja. Aquela máxima de que “em briga de marido e mulher não se mete a colher” já não se justifica mais. É preciso meter a colher.
As microviolências são elementos que precisam ser sempre considerados nas relações. Desde um comentário depreciativo acerca da roupa ou da cor do esmalte até críticas sobre a criação dos filhos ou a suposta falta de capacidade para alguma tarefa que exija força física, esses comportamentos já demonstram visões de mundo que colocam as mulheres em condições de inferioridade, como incompetentes ou incapazes, fantasiando a posse e a dominação do corpo feminino como demonstrações “exageradas” de zelo e carinho.
Diz a lenda que foi por esse “excesso de zelo” que a primeira mulher citada foi morta. Ela sempre gostou de bailes, onde inclusive conheceu seu companheiro. Numa determinada noite, ela queria ir a uma festa, mas ele a proibiu, alegando que estaria de serviço no quartel. Ela foi mesmo assim. O criminoso, desconfiado, abandonou seu posto de serviço, foi até o caminho da casa dela e ali ficou de tocaia. De madrugada, quando ela passou, foi atacada a facadas por ele. Seu corpo só foi descoberto na manhã do dia seguinte, um domingo.
No jornal O Diário do Comércio do dia 30 de janeiro daquele ano, havia a seguinte nota: “uma moça de cor parda havia sido assassinada numa travessa da Rua Campos Geraes, tendo a cabeça completamente separada do corpo e fundos talhos de navalha nas mãos”.
Seu assassino foi preso e levado a júri, mas acabou absolvido, já que não houve testemunhas e seu álibi era “sólido” — naquela noite, ele estaria de serviço no quartel.
Como mencionado no início, a vítima, pobre e sem parentes, foi enterrada em uma cova rasa no próprio local onde morreu. Um ano mais tarde, seu assassino foi fuzilado durante a Revolução Federalista (1893 a 1895), o que, para quem acompanhou o caso na época, foi visto como um castigo divino. Depois disso, várias pessoas começaram a peregrinar até o local da tragédia, levando flores, velas e, mais tarde, ex-votos.
Nascia, nesse momento, uma nova dinâmica diária que passou a incomodar os moradores vizinhos. Diante disso, os restos mortais da lavadeira foram transladados para a ala dos indigentes no Cemitério Municipal São Francisco de Paula, até que, em 1960, foi construído um mausoléu para ela.
Todos os dias há pessoas visitando seu túmulo, mas é no dia 2 de novembro que ocorre o auge dessas peregrinações a Maria da Conceição Bueno — ou simplesmente Maria Bueno, a santa popular curitibana. Mesmo sem ter sua santidade reconhecida pela Igreja Católica, Maria Bueno tornou-se o principal símbolo de fé e devoção de milhares de pessoas, não apenas católicas, mas também de outras religiões.
Sua história, fruto de uma terrível injustiça social, serve aqui de alerta para este 22 de julho. Infelizmente, continuamos a ver mulheres morrendo diariamente, transformadas em apenas mais uma estatística.
** Cláudia Gruber é secretária executiva de Comunicação da APP-Sindicato, professora aposentada do Núcleo Curitiba Sul e mestra em Estudos Literários pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).
Referências Bibliográficas: Variação das taxas de feminicídio no Brasil revela forte aumento em 2025 – LESFEM O que é feminicídio? Anuário Brasileiro de Segurança Pública Boletim UEL Como nascem os santos : o caso Maria Bueno
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Fonte:appsindicato.org.br


































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































