Amazon x Meta: Quem controlará as compras feitas por IA?
A Meta quer que seu assistente de IA pessoal, o Muse, faça tarefas por conta própria em nome dos usuários. Isso inclui agendar consultas médicas, organizar calendários e fechar compras online.
Mas nem todo mundo concorda. A Amazon bloqueou o Muse de realizar compras em sua plataforma, alegando falta de transparência no acesso à loja e que não foi consultada ao ser adicionada às opções disponíveis no agente.
A Meta, do outro lado, fez parcerias com outras lojas do varejo online, como Walmart, Shopify e Sephora. Ou seja, enquanto algumas plataformas de e-commerce abrem as portas para a IA, outras fecham.
Especialistas consultados pela CNN Brasil apontam que o embate entre Amazon e Meta tem a ver não apenas com a segurança dos agentes de IA, mas também uma disputa para ver quem fica com o consumidor em um mercado de IA cada vez mais disputado.
Meta Muse faz compras por conta própria
O Muse é um agente de inteligência artificial que se propõe a agir como “assistente pessoal”. Para além de responder perguntas e gerar imagens, a tecnologia raciocina sobre determinada demanda, pesquisa e navega na internet, até que finalmente coloca a mão na massa. Isso vai desde organizar a caixa de entrada do e-mail até fechar uma compra por conta própria.
Na prática, é possível pedir que a IA ofereça indicações de um determinado produto, compare preços online, realize a compra na loja com o melhor custo benefício e mande entregar no endereço da pessoa.
Segundo a Meta, o Muse consulta os usuários antes de tomar ações sensíveis, como no caso de transações financeiras. Em comunicado, a empresa também revelou que as pessoas podem escolher quais aplicativos o agente se conecta, e qual o nível de acesso de cada um.
O sucesso da ferramenta foi quase imediato. O aplicativo chegou ao topo da lista de apps gratuitos na App Store, da Apple, nos Estados Unidos apenas 10 dias após a estreia, em 8 de setembro. De acordo com a empresa de análise Apptopia, o Muse foi baixado 1,8 milhão de vezes em iPhones na América do Norte.
Em comparação, o aplicativo do ChatGPT, da OpenAI, teve 1,3 milhão de downloads em maio de 2023, quando foi lançado.
O impacto também chegou às bolsas de valores. As ações da Meta dispararam 12% após o lançamento do agente. Os papéis chegaram a cerca de US$ 778, uma recuperação em relação aos US$ 525 registrados no fim de março.
A companhia de Mark Zuckerberg vinha pressionada pelos processos judiciais nos Estados Unidos e pelos gastos elevados em inteligência artificial.
Por ora, o Muse está disponível apenas nos EUA e no Canadá.
Agentes de IA: um mercado em ascensão
A Meta não é a primeira:
- Em novembro de 2024, a Perplexity lançou o Buy with Pro, um recurso que permite que assinantes acessem catálogos, recebam recomendações personalizadas e fechem compras através do chat, sem precisar visitar o site da loja;
- Em janeiro de 2025, a OpenAI anunciou o Operator, um agente que usa o navegador para realizar tarefas — incluindo fazer compras. Em setembro daquele ano, a desenvolvedora lançou o Instant Checkout, um recurso em parceria com a Stripe que permite finalizar a transação dentro do próprio chat;
- Em maio de 2025, foi a vez do Google. A empresa anunciou um experiência de compras dentro do Modo IA, incluindo opções de pesquisa com IA e provador virtual;
- Em janeiro de 2026, a Microsoft anunciou os “Agentes de Marca” e o Copilot Checkout. Enquanto o primeiro oferece orientação baseada em IA, simulando um vendedor de uma marca, o segundo permite fechar a compra a partir de uma conversa simples dentro do chat, sem necessidade de ir até o site;
- Em setembro deste ano, a Anthropic também lançou um agente de compras, que permite acessar o catálogo de lojas para fazer recomendações personalizadas, comparar preços e adicionar itens ao carrinho para o checkout.
A própria Amazon tem um agente de IA voltado para compras, o Rufus. A ferramenta ajuda a pesquisar produtos, comparar opções e tirar dúvidas diretamente no app ou no site.
Amazon vs. Meta
A Amazon decidiu bloquear o acesso do Muse alegando falta de transparência na forma como a IA faz compras em nome de clientes, e na ausência de uma opção de não participar.
Em nota à CNN Brasil, a Amazon revelou que pediu à Meta que a remova das permissões do Muse.
“Acreditamos que seja bastante claro que aplicativos de terceiros que se propõem a fazer compras em nome de clientes de outras empresas devem operar de forma transparente e respeitar a decisão de cada provedor de serviço sobre participar ou não. Isso é fundamental para garantir uma experiência de compra segura e confiável — e é assim que outros já funcionam, como apps de delivery e os restaurantes para os quais fazem pedidos, serviços de entrega e as lojas em que compram, e agências de viagens online e as companhias aéreas cujas passagens vendem. Aplicativos que atuam como agentes, como o Muse, têm as mesmas obrigações, e já solicitamos à Meta que a Amazon seja retirada dessa experiência.”
Amazon, em nota à CNN Brasil
Contatada, a Meta se recusou a comentar.
Para Arthur Igreja, especialista em Tecnologia e Inovação, a decisão da Amazon tem dois lados. De um lado, há uma preocupação genuína com a segurança, uma vez que o agente poderia acessar informações críticas dentro da plataforma ou realizar compras sem autorização.
De outro, Igreja vê um movimento de “defesa de território”. Isso porque a Amazon, uma gigante do e-commerce, compete com plataformas como Mercado Livre e Walmart no varejo. Agora, temos uma nova modalidade, o que ele chama de “varejo agêntico”, em que uma inteligência artificial pesquisa e faz compras em nome de um usuário.
“A partir do momento em que a pessoa tem o seu concierge digital de luxo, ela vai acessar menos, navegar menos e descobrir menos coisas. Do ponto de vista do modelo de negócio, é uma ameaça genuína”, afirmou.
Essa não é a primeira vez que a Amazon bloqueia IAs que tentaram se conectar aos seus sistemas. A companhia já impediu o acesso dos agentes de compras da Perplexity, Google e OpenAI, em uma estratégia mais ampla de se blindar contra esse tipo de automatização.
Álvaro Machado Dias, especialista em IA e colunista da CNN Brasil, também defendeu que a decisão faz sentido como “defesa de negócio”.
Ele explicou que o Muse acessa a Amazon através da conta do próprio usuário. A empresa de varejo só percebe se tratar de um agente de IA, e não de um humano, pelo padrão de cliques e pela origem da conexão.
Nesse caso, também fica fácil de impedir o Muse: basta alegar que o usuário violou os termos de uso da plataforma e puní-lo.
Mas a solução funciona apenas a curto prazo. “Bloquear o agente vira bloquear o cliente, coisa que loja nenhuma faz por muito tempo”, avaliou Machado.
Amazon pode bloquear agentes de IA?
Advogados consultados pela CNN Brasil apontaram que sim — mas com ressalvas.
Segundo Mariana Battochio Stuart, advogada especializada em IA e LGPD, e sócia do Arruda Alvim & Thereza Alvim Advocacia, a Amazon tem liberdade para proibir o acesso aos seus sistemas se conseguir justificar que o bloqueio foi baseado em riscos técnicos e de segurança, para preservar consumidores.
No entanto, a proibição pode ser contestado se o argumento de segurança não se sustentar, ou quando houver tratamento mais favorável ao agente de IA da Amazon ou de parceiros em detrimento da concorrência sem critérios transparentes.
“A Amazon pode definir quem e o que acessa sua infraestrutura, mas não pode transformar essa liberdade em instrumento abusivo de fechamento do mercado, sobretudo se detiver posição dominante e utilizar o controle da plataforma para proteger produtos próprios contra a concorrência”, explicou.
Já para Juliana Sene Ikeda, advogada especializada em Digital e sócia do Campos Thomaz Advogados, a disputa fica mais complicada por se tratar de um mercado relativamente novo, o dos agentes de IA nas compras.
Ela explicou que, quando uma empresa que controla um canal de acesso considerado relevante para determinada atividade econômica restringe esse mercado, pode haver abuso de posição dominante. No entanto, no caso da Amazon, seria prematuro falar em algum tipo de abuso.
“A análise concorrencial normalmente depende de fatores como participação de mercado, existência de alternativas viáveis, impactos sobre consumidores e justificativas técnicas apresentadas pela empresa dominante. O caso envolve duas big techs, mas num mercado relativamente novo. É um debate que precisa ser acompanhado”, afirmou.
Sobreposição de setores
Arthur Igreja acredita que a ascensão da inteligência artificial vem provocando uma sobreposição de mercados.
“Estamos vendo a dissolução de territórios que, aparentemente, eram muito claros até então. A Meta era rede social. A Amazon era e-commerce e nuvem. A Microsoft era ferramentas de produtividade”, afirmou.
A Meta já vem ampliando essas fronteiras. A big tech passou a investir em hardware, como óculos inteligentes e de realidade virtual, um assistente de IA físico e até o desenvolvimento de chips próprios. Com o Muse, agora adentro o setor de varejo.
Para Igreja, a tendência é que, com o tempo, o comportamento do comprador mude. Em vez de abrir o site ou aplicativo da Amazon e buscar um produto, o usuário vai apenas pedir para o Muse conduzir a pesquisa e comprar o item por conta própria.
“Agora, tudo virou empresa de IA, com novas possibilidades, novas oportunidades e novas integrações. E uma empresa começa a beliscar o território da outra”, defendeu.
Já Álvaro Machado Dias defende que, a curto prazo, a tendência seja a de “dois mundos fechados”. De um lado, a Amazon, que só permite que seu agente de IA próprio funcione dentro da plataforma. De outro, a Meta e o uso do Muse em todos os outros comércios em que ele for aceito.
“Se o Muse fizer isso bem, a Amazon começa a perder pedidos que nunca imaginou perder e senta para negociar, porque bloquear o cliente sai mais caro do que ceder balcão”, explicou.
Machado também chama atenção para a publicidade. A Amazon não ganha apenas nas compras em si, mas na publicidade que roda na plataforma. Ao contrário do consumidor, o agente de IA não vê anúncios — ele vai direto no link do produto e fecha a compra.
O especialista acredita que, eventualmente, os anunciantes vão migrar seus investimentos da loja para o dono do agente. “As marcas vão pagar para aparecer na resposta, do mesmo jeito que hoje pagam para aparecer no topo da busca”, afirmou.
Para ele, essa combinação de fatores levará a Amazon a ceder ao Muse.
“Minha aposta é que daqui a dois anos o agente da Meta comprará na Amazon, identificado, pagando um pedágio e vendo a prateleira patrocinada, como qualquer cliente”.
Fonte:www.cnnbrasil.com.br

























































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































